Fonte: Assessoria Compliance Comunicação

O motorista de aplicativos L.T. acreditava até sexta-feira dia 28/02, que iria realizar o sonho de dirigir o próprio carro e, assim, lucrar mais. Ele arrematou um Fox preto 17/18 no valor de R$ 24.600 no site grandelanceleilões.com. Ao receber a carta de arremate, foi induzido a depositar o valor total de R$ 26.570, o qual incluía a comissão (R$ 1.230,00), taxa de pátio (R$ 620,00) e custo do frete (R$ 120,00) até as 13h da quinta-feira (20/02). A TED foi realizada e, segundo o atendente, o carro seria transportado à residência do comprador até às 18h do mesmo dia, porém nunca chegou.

Um dia após a operação, o banco ligou alertando que se tratava de golpe. A vítima pediu o estorno da operação, mas nada foi feito. Desesperado, ele mandou novamente uma mensagem via whatsapp para o número de atendimento que consta no site (11) 9 3364-6677 e, ao ameaçar ir à polícia, foi bloqueado. “Trabalho mais de 15h por dia fazendo aplicativo. O custo do aluguel de um carro consome grande parte do meu ganho. Então fiz um esforço junto com a minha esposa para economizarmos para comprar um carro. Vi uma oportunidade de adquirir o veículo via leilão, já que o valor que eu dispunha não era muito”, conta.

Casos como esse se proliferam em todo o Brasil. Segundo o Sindicato dos Leiloeiros do Estado de São Paulo (Sindileiloeiro), existem mais de 400 domínios falsos de sites de leilões em todo o Brasil que têm lesado milhares de pessoas. “Em geral, são domínios .com, trazem bens muito abaixo do preço de mercado e nome de leiloeiros que realmente estão cadastrados na Jucesp, mas que nem sabem que seu nome está sendo utilizado. Temos nos deparado com uma enxurrada de ações contra leiloeiros que são pegos de surpresa”, diz o presidente do Sindileiloeiro, Eduardo Jordão Boyadjian.

Crime que compensa

Não há um levantamento concreto sobre quantas pessoas já foram lesadas por esse tipo de golpe. Os boletins de ocorrência e denúncias ficam espalhados pelas delegacias de bairro, em pilhas de documentos que se acumulam. O caso do L.T. foi aberto no 17º DP de São Paulo e, segundo o policial que o atendeu, a delegacia recebe de 4 a 5 denúncias do tipo por dia. Não fica difícil observar, que não há braços para investigar a todos. “O negócio se prolifera muito rápido. Quando a polícia pega uma quadrilha, esta detém dois ou três domínios, mas há muito mais por aí. Este é um crime que tem compensado bastante e só aumenta”, ressalta Boyadjian.

Tanto se proliferam como compensam que o site grande lance leilões.com se mantém no ar ofertando oportunidades e fazendo novas vítimas. No dia 28 de fevereiro, a página contava com 10 leilões (imóveis, automóveis, materiais e irrecuperáveis) todos abertos para lances e com logos dos bancos comitentes. Ao entrar em um dos leilões de imóveis, o comprador é induzido a cair no golpe ao ver o logo do banco Itaú e as fotos dos apartamentos e casas à venda.

Até o fechamento desta reportagem, vários lances foram registrados. “O senso crítico é o mais importante. Se quer arriscar, tenha o mínimo de cuidado. O que é muito bom para ser verdade, é mentira. Na internet nunca se compra por impulso”, alerta o gerente de TI do CESAR, centro de pesquisa e inovação com sede no Recife, Carlos Sampaio.

“Cada dia criam uma página fake em que as pessoas se cadastram, colocam seus documentos, pagam e não recebem. Em geral, o depósito é feito na conta de um laranja ou de outra vítima. O depósito cai e já vai para outra conta imediatamente”, diz uma fonte do DEIC.

L. T. conta que a pessoa que o atendeu passou uma conta do Banco Santander Consolação e que, ao contatar o seu gerente, ele afirmou que o estorno da operação depende da análise de fraude e do posicionamento da instituição em que foi feito o depósito. O processo de análise demora dez dias.

Crimes de estelionato na Internet sempre existiram e vão existir. A diferença é que cada vez se tornam mais sofisticado e atingem segmentos diferentes. A mais recente onda são os leilões online, após os golpes de pacotes turísticos e venda de outros produtos de varejo. “Muda o tema, mas a mecânica é a mesma. É uma prática de engenharia social. Os criminosos produzem um site extremamente crível e arrojado e iludem o consumidor. Aproveitam o momento para explorar a fraqueza das pessoas que não querem perder a oportunidade”, explica Sampaio, especialista do CESAR.

As ferramentas atuais que permitem o desenvolvimento de sites cada vez mais complexos mesmo que a pessoa seja leiga em programação, facilitam o golpe. “O site é uma imitação muito boa de um site verídico, de forma que para o usuário final não há diferença. Muitas vezes são colocadas ofertas verdadeiras junto com as falsas e exibem características de segurança, o que os torna mais crível. Além disso, são realizadas campanhas de marketing digital”, alerta.

Sampaio dá dicas de alguns passos básicos que podem ajudar o consumidor a se precaver. A primeira é pesquisar as referências do site e do leiloeiro cadastrado. A segunda é observar a certificação do site. Mesmo assim, nada é garantido. “Mesmo que este seja certificado e o cadeado feche, não há garantia de idoneidade. Ao ver o cadeado fechar, o usuário deve clicar com o botão direito e ver quem emitiu, se a certificação é nacional e quando foi feita. Se é recente, fuja. Se não for brasileira, fuja. Certificação fora do Brasil é mais um sinal para desconfiar”, ressalta.

Outro cuidado é o registro do site. A maioria dos sites fakes tem domínio .com/br, o que provoca a confusão com os .com.br. Este é o caso do Grande Lance Leilões. Existem dois sites, um .com.br e outro .com/br. Enquanto o domínio .com aparece com grandes oportunidades para os desavisados, a página grandelanceleiloes.com.br está desconfigurada e exibe o seguinte recado: SIMULADO NAO MEXER, em letras maiúsculas.

Sampaio dá ainda outra dica. Se o domínio do site é .com.br, é fácil fazer uma sondagem mais apurada através do Registro.br (ferramenta Whois). Ao colocar o endereço, é possível descobrir o nome do proprietário do domínio e fazer uma busca sobre a sua idoneidade.