Fonte: Cetic.br

Em debate marcado pelo lançamento das publicações das pesquisas TIC Domicílios 2016, TIC Educação 2016 e TIC Kids Online Brasil 2016, especialistas nacionais e internacionais discutiram na última quinta-feira (23) os avanços e desafios da formulação de políticas públicas na área de educação e cultura digital. Realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), o encontro foi guiado por tópicos como inclusão digital, desigualdades, desenvolvimento de habilidades digitais e inovação.

Demi Getschko, diretor-presidente do NIC.br, lembrou durante a abertura que “parte dos recursos obtidos por meio do registro de domínios são revertidos em ações que beneficiam a Internet no Brasil, entre elas, as pesquisas do Cetic.br”. Na mesma ocasião, Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br, destacou o lançamento, também no dia 23/11, da Política de Inovação Educação Conectada, que teve a colaboração do NIC.br, por meio do Cetic.br e do Ceptro.br (Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologias de Redes e Operações).

O Programa do Governo Federal, que busca fomentar o uso pedagógico das TIC nas escolas, irá utilizar o software do Sistema de Medição de Tráfego Internet (SIMET) para medir a qualidade da conexão à Internet nas escolas brasileiras. A iniciativa também foi comentada por Rossieli Soares da Silva, secretário de Educação Básica do Ministério da Educação do Brasil, que gravou um depoimento em vídeo especialmente para o evento.

Ao introduzir o debate “Educação e cultura digital: avanços e desafios para as políticas públicas”, Barbosa comentou os resultados das edições de 2016 das pesquisas TIC Domicílios, TIC Kids Online Brasil e TIC Educação. “As pesquisas mostram que ainda existe uma enorme distância entre o mundo da criança fora da escola e as práticas adotadas nos sistemas educacionais. Fora do muro da escola, os atores já estão imersos na cultura digital, enquanto a escola, mais precisamente a sala de aula, ainda não usufrui plenamente das oportunidades decorrentes do uso da tecnologia”, considerou. Ainda na opinião de Barbosa, a transformação digital tem gerado novas demandas no campo educacional, além da necessidade urgente de promoção e desenvolvimento de novas habilidades.

“A produção de dados e estatísticas confiáveis para compreender esses fenômenos é fundamental. O Cetic.br acredita que está contribuindo para a formulação de políticas públicas mais eficazes, e que também pode sensibilizar os diferentes atores da sociedade para essas questões”, concluiu. Anualmente, o Cetic.br realiza mais de 100 mil entrevistas individuais para todas as pesquisas que produz.

Políticas e habilidades digitais

Professor no Centro de Políticas Comparadas em Educação na Universidade Diego Portales (Chile), Ignacio Jara pontuou que as politicas digitais em sistemas escolares devem se basear em três ideias e propósitos: contribuir para a inclusão digital; utilizar a tecnologia para melhorar o processo pedagógico e de aprendizado; e incorporar novos tipos de competências vinculadas à tecnologia, que tenham a inovação como principal objetivo.

“Até agora, a maior parte dos estudos mostram que o uso da tecnologia fora da sala de aula ainda não trouxe um impacto imediato no resultado do ensino aprendizagem. Este processo de maturação é lento, e tem beneficiado de forma mais tangível estudantes de contextos sociais mais favorecidos, com rica bagagem cultural”, alertou.

Ainda na avaliação de Ignacio, é necessário ir além da capacitação tradicional. “De que maneira vamos introduzir estudantes de forma mais profunda no mundo digital, não só como usuários e produtores de informação, mas como criadores de tecnologia?”, questionou.
Debate

Com a moderação de Gabriela Mora, oficial da área de Desenvolvimento e Participação de Adolescentes do UNICEF no Brasil, o debate trouxe novas contribuições dos especialistas sobre questões como habilidades digitais e inovação na educação. “Temos uma visão acrítica dos chamados nativos digitais como se eles tivessem a capacidade de se autoeducar. De que quem é essa responsabilidade e de que forma podemos contribuir para apoiar essa geração?”, introduziu Gabriela. Ela ainda pontuou os mecanismos que considera fundamentais para o processo de literacia digital, como a expressão criativa, participação em redes colaborativas, reflexão sobre aspectos econômicos e políticos das plataformas tecnológicas, pensamento crítico, participação e cidadania.

Discutir a cultura digital na escola é um tema de muita complexidade, avaliou a professora Leila Iannone, consultora científica da Pesquisa TIC e Educação. “Essa complexidade aumenta à medida que pensamos no universo da escola que transita pela tensão cotidiana da conservação e transformação. Ao mesmo tempo em que se deseja o avanço das inovações, temos simultaneamente o aspecto da conservação, a resistência à construção de um novo modelo de conhecimento”.

Para a professora, a cultura digital na escola e da escola passa pela intervenção de diferentes atores educativos, membros da comunidade e da família. “Cada escola vai criar sua cultura e transitar por culturas digitais próprias daqueles nichos de construção do conhecimento”, analisou. Sob a ótica da formação de professores, Leila fez um convite à reflexão. “Que formação é essa que se precisa promover? Em quais as condições os professores atuam nas suas instituições públicas e privadas? O que se espera da formação das novas gerações? Ter infraestrutura e acesso não vai transformar a educação, mas sim um novo currículo com atores educativos preparados. Convido todos a pensarmos sobre os próximos passos”.

O debate também contou com a participação de Fernando José de Almeida, professor na PUC-SP, que destacou a importância do trabalho do Cetic.br. “O conjunto das publicações do Cetic.br abriga a possibilidade de interpretar o País que vivemos. Isso é inovador, pois olha a tecnologia como algo de profundo compromisso com a criação e aperfeiçoamento de conceito de nação. A contribuição do Cetic.br é na direção de gerar conhecimento”.

Em relação ao ambiente escolar, Almeida pontou que este espaço deve ser de reflexão e pensamento, listando características que considera fundamentais: causar espanto, gerar capacidade de indignação e possibilitar que alunos escrevam suas visões de mundo. Almeida ainda defendeu uma proposta curricular humanizada e reforçou que a tecnologia traz uma enorme esperança para a ampliação do conhecimento.

Indicadores, análises e microdados

Lançadas durante o evento, as publicações estão disponíveis para download gratuito em http://cetic.br/publicacoes/indice/pesquisas/. Os livros trazem os indicadores e artigos sobre temas como inovação e tecnologia na educação; publicidade dirigida às crianças na rede; exclusão digital, acesso à internet e condições sociodemográficas, entre outros.

Em outubro, o Cetic.br disponibilizou os microdados da pesquisa TIC Domicílios 2015. Em breve, também será possível acessar os microdados da edição de 2016 da mesma pesquisa, e também das duas últimas edições da TIC Kids Online Brasil.